segunda-feira, 27 de março de 2017

Reportagem da "Revista Serafina" publicada em 26/03/2017

POR FERNANDA MENA
Daniel Klajmic


Mulher do mundo que cultiva um lar, não em um lugar, mas nas famílias de raiz e de eleição, Maria Gadú deve ampliar as duas redes de afeto em um só lance.
No segundo semestre, a cantora e compositora de 30 anos deve iniciar o tratamento hormonal para a extração de óvulos a serem fertilizados in vitro e gestados por sua mulher, a diretora de arte Lua Leça, 32.
"Sempre quis ser mãe, desde pequena", conta Gadú. "E minha mãe sempre quis ser avó. Começou uma campanha quando eu tinha 15 anos, tipo: 'Por que você não tem filho logo, jovem?' E eu: 'Filho de quem, mãe? Tá maluca?'."
Desde então, a artista namorou homens e mulheres, mas só sentiu que tudo estava no lugar certo quando passou a viver com Lua, quatro anos atrás, depois de uma noite em que o primeiro beijo foi sucedido pela mudança das malas da diretora para a casa de Gadú.
"Essa história de se vincular a um doador amigo não nos agrada. Vamos comprar o esperma", diz. "Se um dia nosso filho nos perguntar de onde ele veio, vou dizer: "Mamãe comprou. E custou caro!".
O projeto deve se repetir às avessas, em alguns anos, quando Gadú quer ficar grávida. "Queremos um mesmo doador para que os dois bebês sejam irmãos biológicos". Nesta escolha, a cantora quer resolver um antigo trauma. "Meu pai biológico é negro. Toda a família é de negros e índios. Só eu que desbotei. Olha que droga!", lamenta.
"Nossa ideia é comprar esperma de doador negro para retomar a cor da família e manter a linhagem."

FAMÍLIA TRADICIONAL


Maria Gadú foi criada pela mãe e pela madrinha, mãe de seus dois irmãos de criação, e sempre diz que tem três pais.
O primeiro é Dodô, que se casou com a madrinha quando ela e a mãe viviam juntas, e adotou as crianças como filhos.
O segundo é Marc Aygadoux, um músico francês amigo de sua mãe, que a cantora elegeu como pai ainda pequena e que até hoje chama de "papa".
O terceiro é Moacyr, pai biológico, que acabou chegando em sua vida por último porque desapareceu por dez anos após registrar a filha com um nome indígena e apenas o sobrenome paterno: Mayra Corrêa. Quando ressurgiu, Moacyr trouxe consigo o único irmão biológico da cantora, Cauê.
Dessa confusão, surgiu Maria Gadú. "Adolescente, revoltadinha, resolvi que usaria o nome que minha mãe queria, mas não conseguiu registrar. Foi numas de ocupar e resistir", explica, em referência ao lema das ocupações estudantis em escolas públicas de 2015, movimento que apoiou, fazendo shows nos prédios repletos de adolescentes.
Já seu sobrenome artístico, Gadú, é uma corruptela de Aygadoux, o mesmo do pai de eleição, o segundo dos três.
"Mesmo com tudo isso, minha mãe e meu pai são amicíssimos. É uma família massa, sem mágoa. É bonito", avalia.
Para conceber a sua nova família, Gadú e Lua querem evitar as confusões.
Pretendem adquirir o sêmen fora do país. "Ficamos inseguras de informações serem vazadas e descobrirmos quem é o pai. Ou, pior, aparecer o pai!", diz Lua, que exclama, em coro com a cantora: "Pelo amor de Deus, não!".
Adquirir o material genético fora do país, no entanto, implica em realizar o procedimento também no exterior, uma vez que não é possível importá-lo nem é legal entrar no país com ele na mala.
O registro do bebê terá menos dificuldades. Desde março de 2016, a Resolução 52 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determina que todo cartório é obrigado a fazer o registro homoparental de filhos de casais gays concebidos via inseminação artificial.
Gadú e Lua se mudaram para São Paulo e escolheram o novo endereço pela proximidade da casa da futura avó e da escola construtivista onde querem matricular as crianças: dois filhos biológicos e um adotivo no meio.
"Já escolhemos tudo. Do quarto à escola.", diz.
Gadú passou a acompanhar as fotos com Lua da hashtag #famíliatradicionalbrasileira. A provocação é uma tentativa de desarmar clichês e preconceitos. "Nunca fui de levantar a bandeira gay. Sempre lutei pela igualdade mesmo", explica.
"Na minha cabeça, quanto mais eu conseguir entrar na sociedade como uma pessoa normal, melhor. Não sou ativista da minha sexualidade até porque nem é meu forte. Não sou a pessoa mais sexual do mundo nem a mais gay nem a mais nada!", ri.
Ainda assim, é alvo das patrulhas virtuais, nas redes em que conta quase 3 milhões de seguidores. "Se posto uma foto de batom: 'Ah, agora quer ser mulher!'. Se é uma foto de cabeça raspada: 'Ah, agora quer ser menino!' E eu não estou querendo nada, velho! Estou aqui vivendo a minha vida."

CAETANO

Irreverente e séria, feminista e Amélia, Maria Gadú é várias em uma. E, assim, frustra quem quer enquadrá-la, materializando os versos da canção "O Quereres", de Caetano Veloso, cuja primeira estrofe ela leva tatuada na batata da perna direita.
"Onde queres revólver, sou coqueiro/ E onde queres dinheiro, sou paixão" marcaram a pele da cantora bem antes de ela conhecer um de seus ídolos, com quem em 2011 faria dueto em turnê e álbum – numa simbiose tão benéfica para um como para o outro. "Foi um privilégio ter passado esse tempo com ele. E sei que Caetano curtiu a mistura de público", conta.
"O convívio com ele é maravilhoso. Aprendi muito de cinema e de música hispânica. Bebi muito ali."
Hoje, Caetano também se derrama pelo que chama de "grande musicalidade" da parceira: "Maria Gadú foi um acaso maravilha que me aconteceu. Viramos amigos para sempre", disse à Serafina.
A menina que passou boa parte da infância tocando violão no quarto, e que se dividiu, na adolescência, entre escola, Igreja Messiânica e palcos de barzinhos era fã de artistas que hoje chama de família, como Milton
Nascimento e Lenine.
Ficar amiga de seus ídolos, desconstruir e profanar seus deuses musicais foi, para Gadú, como "matar os pais", e fez ela querer manter um deles intocado, para ser visto de longe: Marisa Monte. "Ela está num altarzinho, como a Rosa de 'O Pequeno Príncipe'."

CANTAUTORES

Outros artistas viraram santo de casa. "Pra mim, Milton é de uma genialidade absoluta. É um deus", conta a cantora. "Falo com ele quase todos os dias. Vou cuidar dele quando está doentinho. É muito gostoso."
O cantor e compositor mineiro disse que "Gadú foi um presente", e enaltece a versatilidade musical da amiga. "Gadú canta, toca, escreve, interpreta. Não existe nada que ela não possa fazer."
Já Lenine ela chama de "pai da sua geração", a de músicos como Dani Black, Silva, Céu, Leo Cavalcanti e a banda 5 a Seco. "Para a gente, Lenine é uma onipresença. Ele nos traz esse lance de ser 'cantautor'", explica.
É o termo de que mais gosta para definir o que faz: tocar e cantar a própria canção.
Segundo Lenine, os "cantautores" remetem aos trovadores do século 11, que cantavam o que compunham: crônicas de seu tempo em forma de verso, poesia e canção, tendo o instrumento como projeção de seu corpo.
"Gadú é explicitamente isso: uma trovadora contemporânea", diz o pernambucano. "Eu me reconheço na dificuldade de insistir em um caminho estético autoral. Ela abre a boca, e é Gadú. Mas é camaleônica. É de surfar tsunami."
O maior tsunami musical surfado por ela até o momento se chama "Shimbalaiê", canção que virou trilha de novela e a lançou a um estrelado instantâneo em 2009. "Numa semana eu estava tocando para cem pessoas num barzinho e, um mês depois, estava com duas noites esgotadas de show para 4 mil pessoas no Rio", lembra. "Foi muito louco."
A história do hit não é menos inusitada. Maria Gadú compôs "Shimbalaiê" aos dez anos de idade. "Achei que estava lembrando de uma música. Loucura de criança. Mostrei pra minha mãe e ela disse: 'Mas como você está lembrando se essa música não existe? Você está é compondo!'."
Foi também a mãe de Gadú quem guardou uma gravação da música feita com a banda da Igreja Messiânica e a apresentou ao produtor do primeiro disco da artista, contra a sua vontade.
A artista só voltaria a compor no final da adolescência, ainda de maneira tímida. "Tinha vergonha mesmo", admite.

MEGA-AMÉLIA

Passou a apresentar suas músicas quando foi viver na Europa, financiada pela venda do único apartamento da mãe, que queria tirar a filha da depressão disparada pela morte da avó materna, Dona Cila, uma empregada doméstica que era também cantora lírica.
"Minha avó era praticamente uma escrava. Trabalhar e não ter dinheiro para criar a própria filha é escravidão, né?", diz. "Sou dona de casa, mega-Amélia, por causa dela. Faço tudo. Cozinho todos os dias, café da manhã, almoço e janta", diz, apertando a cintura que denuncia certo ganho de peso.
Letrista de renome entre os compositores das novas gerações, Maria Gadú aprofundou sua autoralidade no último álbum, "Guelã", o mais íntimo dos seus discos.
"A mulher no instrumento sempre foi pro lado da erudição porque a música popular é muito machista", critica.
"A mulher que toca guitarra, baixo, bateria tem que ouvir: 'Ah, mas você toca como homem!'. Eu digo: 'Não como você, né, querido?' Que papo é esse? Eu toco como mulher, porra! Ôxe!"
Gadú traz no corpo seis triângulos, símbolo do feminino, tatuados nos dedos e braço. "Triângulo é equilíbrio. É hiperdemocrático: todo mundo pode ficar de um lado, do outro, ou embaixo. Todo mundo toca todo mundo. E o feminino busca o equilíbrio, a equalização, a compreensão", divaga.
Em casa, a cantora tem uma alcunha inusitada: "Me chamam de rainha dos cromossomos porque vivo falando do feminino, de como ele opera em todos os corpos", diz. "Ninguém está aqui inventando uma ideia social de que o feminino está em tudo. É uma coisa científica, biológica. Quando o óvulo encontra o espermatozoide, ele forma o seu caráter genético com o feminino, independente de você nascer homem, mulher, trans ou o que for", teoriza.
É esse o plano.

Fotos: "GUELÃ" - Sesc Jundiaí - Jundiaí/SP - 24/03/2017












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