quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Show conjunto de Caetano e Gadú evidencia distância entre os dois

Turnê estreou em Salvador no início do mês e chegou a São Paulo nesta quarta-feira


Foto: Jorge Rosenberg, especial para o iG

Caetano Veloso e Maria Gadú são artistas bastante diferentes, e a turnê conjunta da dupla, que estreou em Salvador no início do mês e chegou a São Paulo nesta quinta-feira, deixou essa desigualdade bem evidente. Gadú faz uma música mais simples, de comunicação quase imediata com o público, e criou uma persona no palco que usa a timidez para conquistar a plateia. Já Caetano é múltiplo, que vai do popular ao sofisticado, do doce ao agressivo, do caloroso ao distante. E boa parte dessas facetas não funciona ao lado de Gadú.
A performance de ontem começou com os dois juntos no palco, interpretando "Beleza Pura", composta por Caetano em 1979. Depois, cada um fez um bloco sozinho: primeiro Gadú, que fez a plateia cantar junto com ela canções como "Tudo Diferente" e "Laranja". Após uma interpretação um tanto nervosa de "Podres Poderes", ela recebeu Caetano de volta ao palco e os dois cantaram "O Quereres" e "Sampa". O cantor então ficou sozinho e interpretou desde clássicos ("Alegria Alegria") até músicas mais recentes ("Odeio").



Foto: Jorge Rosenberg, especial para o iG

O bloco de Caetano foi tenso. Começou com duas canções mais obscuras ("Milagres do Povo" e a bela "Jenipapo Absoluto"), que dispersaram a atenção de um público já bastante desatento. Ele então tentou ganhar a plateia de volta com "Odeio", um dos pontos altos de suas duas últimas turnês com a banda Cê. O problema é que o público do Via Funchal, mais velho, claramente não conhecia o Caetano roqueiro de seus dois últimos discos ("Cê" e "Zii e Zie"), e até se sentiu incomodado com alguns versos mais agressivos da música. Quanto ele pediu para o público cantar o refrão junto, foi ignorado.
Ele então teve que apelar para os sucessos. O primeiro foi "Desde que o Samba É Samba", obra-prima do álbum "Tropicália 2" (1994) em que o cantor finalmente foi acompanhado pela plateia. Em seguida, foi "Sozinho", de Peninha, um dos exemplares mais significativos dos flertes de Caetano com a música mais popular. O bloco solo terminou com "Alegria Alegria" ("fiz essa música quando tinha 24 anos, a mesma idade da Maria Gadú", disse o músico) e pronto, o público já estava nas mãos do cantor e pronto para a volta de Gadú ao palco.


Foto: Jorge Rosenberg, especial para o iG

Ao ver os dois juntos, ficou claro que estar ao lado de Caetano Veloso faz muito bem para Maria Gadú. Afinal, as composições dele são muito melhores que as dela e é bom ouvir a boa voz não ser desperdiçada com bobagens. Já no caso de Caetano, é difícil ver o que ele pode tirar de bom dessa parceria. Comparado com seus últimos espetáculos, esse é um passo atrás: conservador, retrospectivo, desinteressado. De realmente interessante, só a versão de "Trem das Onze", de Adoniran Barbosa: mais lenta, com um tom mórbido, foi o ponto alto da noite.
Foi o único momento de todo o show em que Caetano não pareceu preso pelas limitações de sua companheira de palco. O resto (além de "Trem das Onze", eles ainda cantaram "Vaca Profana" e "Rapte-Me Camaleoa" e, no bis, "Nosso Estranho Amor", "Vai Levando" e "Menino do Rio) foi morno, não muito melhor do que se ouviria num bar de música ao vivo. O clima no Via Funchal, aliás, era bem esse, com garçons andando entre as mesas e o público conversando em voz alta tranquilamente.

Fonte: UltimoSegundo

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