sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Hora de ouvir o que você já escutou.


Divulgação

Maria Gadú apareceu devagar. Em meados de 2010 uma voz rouca cantava devagar e se espalhava pelos ares de muitas cidades brasileiras. No apartamento vizinho, no rádio, no papo daqueles amigos mais antenados com as novidades musicais… De repente a voz ganhou rosto. Um novo álbum era lançado com direito a muitas chamadas na televisão.

De cara, aquela moça era mais uma entre tantas promessas, uma das “novas vozes femininas da MPB”. Em tempos de tantas novidades, concorrer com Roberta Sá, Céu, Tiê e tantas belezas cheias de sonoridade não era mesmo tarefa fácil. Muita gente deve ter torcido o nariz (por preguiça ou medo da mesmice) e varrido o tal álbum, que leva o mesmo nome da cantora, pra debaixo do tapete das prioridades musicais.

Pois bem, Maria Gadú ainda era privilégio de um gueto muito particular. Os shows na Barra da Tijuca e na Zona Sul da capital carioca eram frequentados por gente acostumada a talentos extraordinários. Caetano Veloso ficou “de cara” com o jeito maroto da moça. Milton Nascimento e João Donato também gostaram do som. De quebra, a menina virou o assunto do underground local.

Fácil desconfiar que tudo parecia brincadeira para aquela menina de vinte e poucos anos. Mayra Corrêa Aygadoux nasceu e cresceu em São Paulo. Menina de asfalto, ela começou a aprender violão na mesma época em que aprendia a ler e a escrever. Sintomático? Os fãs mais empolgados diriam: “Profético”. O fato é que, com sete anos, a brincadeira favorita da menina era gravar musicas em fitas cassete. Mocinha, ela já tinha o violão como companhia mais constante. Se apresentava para a família e já fazia pequenos shows. A mudança para o Rio de Janeiro, em 2008, mudou a moça de cenário e foi um passo definitivo.

No Rio, Mayra virou Maria. A cantora que brincava de compor e a compositora que se divertia cantando viraram uma coisa só. De repente a travessura ficou séria. Era o Caetano na platéia. Era o Jayme Monjardim pedindo pra ouvir de novo aquela versão de “Ne me quitte pas” e convidando pra uma participação na minisérie “Maysa”.

Levada, mais de intuição certeira, Gadú já sabia que a carreira era coisa séria. Tanto que teve seriedade o bastante para emprestar sua versão do clássico da música francesa para a trilha sonora da minissérie, que, coincidência ou não, contava a vida de uma das mais talentosas e excêntricas cantoras brasileiras. E foi além: apareceu, de smoking, cantando numa das cenas.

Pronto, senhoras e senhores, tínhamos, se não um novo talento, uma curiosa novidade. Em tempos de encaixotamento de estilo e marasmo de atitude artística, Maria Gadú era, no mínimo, corajosa. Dispensou o rótulo (lugar-comum dos mais comuns) que relaciona o som à opção sexual do artista, e gravou um dos maiores sucessos da loira Kelly Key – “Baba” – no mesmo disco que guardava pérolas como “A história de Lily Baun”, de Chico Buarque.

Não tinha mais jeito. Era hora de desempoeirar a ideia de ignorar a novidade. O disco já era fácil de encontrar. A tal Gadú não era mais coisa de gueto, tinha caído no gosto popular mesmo cantando em francês…

Sim, a música-chiclete (que não desgruda do ouvido), “Shimbalaiê”, apareceu na novela. Sim, Maria gravou com Xuxa, Sandy e Ana Carolina. E vendeu 50 mil cópias antes de receber duas indicações para o Grammy Latino.


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O álbum “Maria Gadú” talvez possa resumir este caleidoscópio de referências que é o som (e a vida) da cantora. Pra quem não ouviu, vale deixar de lado a resistência, mesmo que a título de curiosidade. Quem gostar (e a maioria gosta) do primeiro álbum pode partir para o segundo, “Multishow ao vivo”, que foi lançado recentemente.

Gadú se apresenta em Vitória da Conquista no dia 28 de janeiro. Quinhentos, do total de mil e duzentos ingressos, já foram vendidos. Pelo visto, muita gente se rendeu ao som que tocava na casa da vizinha…

Fonte: VitóriadaConquista

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