sábado, 14 de maio de 2011

Entrevista: Maria Gadú e Caetano

Foto: Isabela Kassow

Ao lado de Maria Gadú, Caetano recebeu o iG na produtora do cantor Caetano, a Natasha, em um prédio comercial na Gávea, zona sul do Rio. O veterano e a novata já se encontrarem algumas vezes nos palcos. A parceria deu certo, e os dois fizeram o especial “Multishow Ao Vivo: Caetano e Maria Gadú”, que será exibido no próximo dia 22 de maio, no canal Multishow, às 23 horas. O CD e o DVD estão previstos para chegarem às lojas no dia seguinte.

Enquanto Caetano é mais sereno e se expressa pausadamente, Gadú fala apressadamente e usa várias gírias. “Parece que nos completamos”, brinca ela.

iG: Como fizeram a escolha do repertório?
Caetano Veloso: Ela conhece muitas músicas minhas e foi lembrando as que queria cantar. E aí, pronto. Foi saindo... Sinceramente, não deu trabalho, não.
Maria Gadú: A gente fechou em uma noite o repertório do DVD. Foi bem rápido, mesmo.

iG: Caetano, nos seus últimos trabalhos, você tem feito parceria com jovens músicos, como a banda Cê e a própria Maria Gadú. O que você recebe em troca?
Caetano Veloso:
Ah! Gadú é muito mais nova do que a banda Cê [risos]. Para mim foi muito bom. Poder conviver e trabalhar com uma menina tão novinha assim, é uma felicidade. Ela é muito talentosa e o talento dela foi reconhecido com muita rapidez e espontaneidade por um grande número de pessoas. Isso é raro. E a gente teve que fazer os shows, só nós dois e os violões, e percebi que preciso treinar muito para fazer show só com voz e violão. Mas é muito gostoso cantar com a Gadú, porque ela segura a plateia de uma forma bem tranquila. Isso é uma dádiva.
Maria Gadú: Você convive bem com gente, né?
Caetano Veloso: É. Eu gosto de gente. Se eu trabalhasse no supermercado, eu seria aquele cara que se dá bem com todos os clientes.
Maria Gadú: Seria o funcionário do mês, né [risos]?
Caetano Veloso: É. Algo assim. Porque quando a gente vai comprar, varia. Tem uns vendedores que só fazem o seu trabalho e pronto. Têm outros mais alegres, que gostam de conversar com a gente. Eu sou desse segundo tipo. E você, Gadú?
Maria Gadú: Estar próximo de uma pessoa que você admira e poder usufruir disso com uma estrutura de carinho, é muito bom. O Caetano tem esse lance de trazer uma proximidade para a relação, que fica muito bom. Para quem está desse meu ladinho, de até então espectadora e sugadora desse gênio, fica muito legal ouvir de perto e fica palpável ver como ele faz e por quê. As pessoas me perguntam sobre a desmistificação dele. Para mim, isso não tem nada a ver. Se for místico, não vai deixar de ser, nunca. Ele é um mito não só para mim.

Foto: Isabela Kassow 
iG: O Bono disse em entrevista que aprendeu com Beatles a não ficar preso a fórmulas e sempre procurar fazer algo novo e diferente. Vocês se sentem assim também? Há uma necessidade de se manter contemporâneo?
Caetano Veloso:
Eu vario, mudo, faço coisas. Foi assim desde o principio, né? Com o tropicalismo, depois ligado mais ao lado bossa nova, depois entrei em uma área mais regional... Depois fiz coisas mais ligadas ao rock dos anos 1960, de onde veio os Beatles. Então, pode-se dizer que aprendi isso com eles também, em parte.

iG: O que acha do atual cenário musical brasileiro, com artistas como Restart, Nx Zero e Luan Santanna dominando as rádios, as premiações e a venda de discos?
Maria Gadú:
Eu acho que isso é MPB, também. Pelo princípio básico da sigla: Música Popular Brasileira. Vai de Sepultura a Chico Buarque e Caetano Veloso. Eu acho. Na verdade, eu não gosto da sigla.
Caetano Veloso: Eu também, não. Mas já que ela existe, ela tem de ser abrangente. MPB é tudo. Qualquer música popular que é produzida no Brasil é MPB. E eu gosto desses fenômenos de grande repercussão. Eles sempre dizem alguma coisa. Veja a história do rock and roll, para dizer o mínimo. O rock é justamente a história da grande informação cultural que representou, o que muitos diziam, que era apenas um fenômeno comercial. Todos diziam, nos anos 1950, quando eu ainda estava na pré-adolescência, que aquilo era ruim e que todo mundo iria esquecer.
Já nos anos 1960, quando apareceu a jovem guarda, todos diziam que a música ia passar e que ninguém ia lembrar. Hoje tenho 68 anos e ninguém esqueceu Roberto Carlos ou Erasmo Carlos.
Muita coisa que as pessoas dizem com facilidade, que é lixo – como Frank Sinatra disse de Elvis Presley e muitos críticos diziam do rock –, só foi reconhecido depois dos Beatles. E com açúcar, até eu. Até o próprio Bob Dylan não apreciava. Ele gostava de João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal, como eu. Eu gosto de todos esses fenômenos musicais.

iG: O que vocês acham da polêmica envolvendo o Ecad [recentemente, descobriu-se que um falsificador recebia dinheiro de direito autoral da entidade]. Acredita que deve haver um órgão para fiscalizá-lo?
Maria Gadú:
Eu acho muito complicado. Tem se levantado muita polêmica sobre fraudes, mas mexe em um assunto que é muito delicado: a música. Fico muito triste de ter que ligar isso com uma coisa que gosto tanto. Eu fico meio confusa. Tipo: "Ah! Vocês estão me roubando?".
Caetano Veloso: É difícil mesmo porque quando a gente começa a fazer música, não é nisso que a gente pensa.
Maria Gadú: Pois é, por isso que eu fico tão confusa.
Caetano Veloso: A motivação inicial não é essa. A gente faz um esforço para acompanhar, mas é um esforço de quem não é do ramo. O Ecad foi criado para resolver um problema, que é a coleta de direitos autorais de execução, e ele tem de ser transparente. Tem de se exigir honestidade total dele. E a médio e a longo prazo ver se o esquema é o mais saudável ou se tem que mudar. Mas essa onda de ficar falando do Ecad porque um sujeito deu uma entrevista para o jornal... Não é negócio grande. Vamos lá! Tem um lado também que o jornal quer fazer sensacionalismo. Aí, quem lê apressadamente, acha o Ecad um monstro. Mas acho que devemos ser exigentes. Bem ou mal, é o que funciona.

iG: Neste ano teremos mais uma edição do Rock in Rio e você é um dos poucos artistas consagrados brasileiros que nunca participou do festival. Tem vontade?
Caetano Veloso: É, nunca participei. Das primeiras vezes me chamaram, mas eu não me senti atraído. Não sei como é hoje em dia. Fui assistir e uma vez fiquei meio no backstage porque o Lulu Santos me convidou para ir com a trupe dele. Mas achei chato. Havia todos aqueles grandes nomes do rock, de língua inglesa. E lembro que uma vez o Rod Stewart ia passar pelo corredor e saíram fechando as portas dos camarins dos artistas brasileiros. E, poxa, o Lulu ia cantar também. Achei chato. Tem de ser respeitado. Os ídolos de rock agem como se fossem imperadores romanos em filme de Hollywood. Acho isso cafona! Fico com saudade do ambiente de jazz quando vejo essa porcaria. Adoro rock, mas não gosto desse negócio dos artistas internacionais fingirem que são Nero em um filme dos anos 50.
Maria Gadú: Eu nunca tive oportunidade de assistir, mas esse ano vou fazer uma participação e cantar junto aos Paralamas do Sucesso e os Titãs. Acho que vai ser bacana.

iG: Caetano, você cita Osama bin Laden na música “Diferentemente”, do álbum "Zii e Zie". O que achou da morte dele?
Caetano Veloso:
É verdade, não lembrava isso.
Maria Gadú: Às vezes eu tenho dúvida se ele morreu mesmo. Achei essa história estranha [risos].
Caetano Veloso: Eu acho que ele morreu, mas não gosto muito disso, não. Você sabe que eu adoro o Obama, né? Mas quando ele estava fazendo a campanha para presidência, ele usou a palavra kill [matar] quando se referiu a Osama bin Laden. Você sabe que eu me senti mal e não gostei. E era naquela época... Eu continuo gostando de Obama e dos Estados Unidos, que é um país revolucionário. Eu acho um pouco desagradável esse modo de resolver o problema. Talvez fosse necessário que seja assim.
Maria Gadú: Pelo histórico, também, né?
Caetano Veloso: É. Eu pessoalmente não me sinto tão bem. Não com o fato de eles terem capturado e aniquilado Osama, mas pelo modo como aconteceu. Não sei se acho que é certo. Eu tenho a impressão que se ele foi capturado, estava sem arma, foi preso e teria um julgamento internacional. Acho que isso representaria os princípios pelos quais os EUA seguem. Não estou dizendo que isso seria fácil ou o mais aconselhável politicamente.
Maria Gadú: O que me assustou mais foi a forma como foi anunciado. Foi como: "Nasceu o filho do rei". Sei lá, ele é uma pessoa. Claro que ele causou uma tragédia histórica. É difícil julgar porque teve essa catástrofe nos EUA que causou muita coisa ruim e despertou sede de vingança.
Caetano Veloso: Mas é assim, a humanidade é assim.

Foto: Jorge Rosenberg
iG: Outro assunto polêmico que está sendo discutido pela sociedade é a legalização da maconha. Qual é a opinião de vocês sobre o assunto?
Caetano Veloso:
Basicamente eu sou a favor da legalização de todas as drogas. Mas com um controle.
Maria Gadú: Eu sempre tive uma opinião muito externa em relação a tudo isso porque, partindo do ponto de vista do usuário, eu não uso drogas e não sei a dificuldade de comprar uma droga. Falando de todo sistema, fica um pouco mais complicado. Estão proibindo também de eu fumar o meu cigarro [risos]. Acho que teria de legalizar porque você possui o livre arbítrio. Não sei qual é o grande motivo dessas pessoas que decidiram isso. Acho que para poupar a pessoa da própria falta de saúde, sei lá. Eu sou favor da legalização.
Caetano Veloso: E tenderia a diminuir a força dos mercados ilegais paralelos. Mas é difícil. Tem de ser uma resolução internacional.

iG: Vocês têm planos de compor um disco de inéditas juntos?
Caetano Veloso:
Não...Tudo o que aconteceu com a gente foi tão rápido e casual. Ainda não compomos nada. Mas quem sabe?

iG: Quais são os seus próximos projetos?
Caetano Veloso:
Estou produzindo o disco da Gal Costa, com músicas minhas. E quero lançar um terceiro disco com a banda Cê. Completar uma trilogia.
Maria Gadú: Vou continuar em turnê com o show do DVD “Multishow ao vivo: Maria Gadú” e depois entro em férias. Finalmente, vou ter um tempo de descanso [risos]. Se isso for contemplado com inspiração, quem sabe faço um segundo disco.

Fonte: IG

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