sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Caetano e Gadú: Cumplicidade a duas vozes em noite de chuva

Duas guitarras, duas gerações, duas vozes que se complementam na perfeição. Caetano Veloso e Maria Gadú aqueceram ontem a noite de Lisboa, levando ao Pavilhão Atlântico um ‘calor que provocou arrepios’.

‘Beleza Pura’ marcou o início de um concerto de quase duas horas, para uma sala esgotadíssima que ouviu com atenção e cantou as músicas dos dois artistas. A solo ou em dueto, com uma cumplicidade ímpar, Caetano e Gadú deliciaram a plateia, composta por fãs de todas as idades.

Nem um nem outro são estreantes em Portugal. Ele é um nome indiscutível da música brasileira. Ela é uma “menina de 24 anos”- como Caetano carinhosamente a trata- com uma voz sóbria, atraente, que rapidamente leva o público ao silêncio. Gadú não dá vontade de acompanhar a cantar. Gadú dá vontade de ouvir com atenção, de olhos bem fechados. É, em bom português do Brasil, ‘tudo de bom’.

Depois da primeira música, o filho de Dona Canô abandonou o palco. Com um “boa noite, gente”, a artista entregou-se então de corpo e alma aos portugueses. Seguiram-se as já conhecidas ‘Bela Flor’, ‘Encontro’ e ‘Tudo Diferente’. Mas nem só de originais se fez o espectáculo. Antes do regresso do seu companheiro de aventura, Maria Gadú interpretou ‘Amor de Índio’, uma música de 1978 de Beto Guedes, mas trazida até à actualidade pelo grupo brasileiro Roupa Nova.

As duas vozes voltaram a juntar-se com ‘O Quereres’ e ‘Sampa’. Depois, foi Caetano que cantou a solo. Os grandes clássicos não podiam faltar e, em cada um deles, a plateia dava um pouco de si. ‘Cajuina’, ‘Desde que o Samba é Samba’ ou ‘Alegria, Alegria’ foram alguns dos temas tocados. O auge não é difícil adivinhar: o cantor, de 69 anos, deixou de lado a solidão e interpretou, bem acompanhado, a tão conhecida e intemporal ‘Sozinho’.

Caetano teve ainda tempo de mostrar que a sua fama de mal-humorado não passa disso mesmo. “É bom cantar músicas de outros [cantores]. Assim sentimos que não estamos a trabalhar!”

E quando todos esperavam que Maria Gadú cantasse ‘Shimbalaiê’, a dupla trocou as voltas ao público e foi Caetano que deu voz ao maior sucesso da artista, que ficou embevecida com a interpretação.

Para o final ficaram os grandes êxitos, a duas vozes, como ‘Trem das 11’, ‘Leãozinho’, ‘O Nosso Estranho Amor’ ou ‘Menino do Rio’. A dupla, que sábado canta no Porto, voltou ao palco duas vezes, após os pedidos de um público persistente.

Um senhor da música brasileira e uma promessa que já conquistou o seu espaço e reconhecimento, num concerto que teria tudo para ser expectável, mas que se tornou numa agradável e deliciosa surpresa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário