segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Duetos a mil vozes com sabor a Brasil - (Pavilhão Rosa Mota - Porto/Portugal)

Caetano Veloso é um dos maiores expoentes vivos da música brasileira, com quem o público português há muito vem mantendo um historial de carinho e devoção. Maria Gadú, fresca em idade e carreira, é hoje uma das mais recentes promessas da MPB, num caminho trilhado a partir de uma lição bem estudada dos grandes e da conquista de novas audiências. O espetáculo que os uniu, concretizado pelo já conhecido costume do músico baiano em fazer-se rodear por talentos emergentes, do qual resultaram os registos audio-visual e sonoro, atravessou o Atlântico para uma pequena digressão em solo europeu, que se estreou em Portugal. Ao Pavilhão Atlântico, em Lisboa, seguiu-se o Pavilhão Rosa Mota, no Porto, onde a onde as duas gerações de músicos se uniram, numa noite de casa cheia.

Com o atraso que o trânsito circundante e as fila frente à bilheteira faziam prever, Caetano Veloso e Maria Gadú subiram ao palco e ocuparam as cadeiras dispostas frente ao globo branco imenso, onde se foi refletindo a iluminação em subtis jogos de luz. Arrancaram em conjunto, com Beleza Pura, para que depois de um abraço Caetano abandonasse o palco, deixando à protegida a missão de aquecer as hostes. Gadú soube aguentar-se, descontraída, perante um público fácil, que se foi mostrando conhecedor do repertório original da cantora, como demonstrado em Tudo Diferente. Amor de Índio, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, entremeou a prestação a solo, rematada com Podres Poderes, do colega Caetano, que regressou ao palco para mais duas canções a dois.

Depois de O Quereres e Sampa, foi a vez de Caetano reinar sozinho, numa falsa solidão partilhada com as vozes da audiência. Se, por exemplo, Desde que o Samba é Samba foi parte cantado num tom mais baixo, para que o público se fizesse ouvir, em Sozinho Caetano foi acompanhado em uníssono do início ao fim. Seguiram-se Alegria, Alegria, tema composto quando o cantor tinha a idade de Gadú, e o convite para que esta voltasse ao palco, para assistir à interpretação da música que esta escreveu quando apenas tinha dez anos, Shimbalaiê - um afeto reciprocado mais adiante, quando Gadú tocou uma composição que escreveu sobre e para o cantor.

E, apesar de todas as provas de valor próprio, é inegável o quanto Maria Gadú brilha mais ao lado do mestre, na beleza acrescida da articulação das vozes distintas. Os trava-línguas de Rapte-Me Camaleoa, os lamentos de Trem das Onze, e Leãozinho, a registar a maior elevação de telemóveis e máquinas fotográficas, foram cantados em dueto, numa cumplicidade enternecedora, de lideranças partilhadas.

Odara ditou a primeira despedida, às quais se seguiram duas reentradas em palco, motivadas pelos aplausos contínuos do público. No primeiro encore ouviram-se Nosso Amor, Vai Levando, tema da autoria de Chico Buarque, e Menino do Rio. Para o segundo ficou reservada a homenagem de Maria Gadú a Caetano Veloso, assim como Qualquer Coisa e uma revisitação inesperada a Sozinho, desta vez em dueto. O toque final mais que perfeito, onde a cumplicidade vivida em palco foi transportada para o público, cujas vozes, mais uma vez, acompanharam emotivamente a canção.

Fotos: Ana Limão

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