quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Segundo disco de Maria Gadú é mais maduro que o anterior

Foto: Simone Kontraluz
O segundo disco de Maria Gadú, “Mais uma Página”, chega às lojas com uma notícia boa e outra ruim. A boa é que o álbum é mais bem produzido do que o anterior – homônimo, de 2009 – com um capricho maior nos arranjos. A ruim é que todas as faixas são palatáveis o suficiente para entrar na trilha de uma novela e, por isso, a super exposição da artista no horário nobre da Rede Globo deve permanecer. Antes mesmo do disco ser lançado, a regravação da pérola “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, já foi usada na abertura da trama das seis, “A Vida da Gente”. Pelo menos, nenhuma das 14 músicas é grudenta como “Shimbalaiê”.

Desde o primeiro contato com o álbum, já fica claro que a moça de 25 anos é a grande aposta da Som Livre. A embalagem do CD é bastante caprichada, com quatro abas que revelam fotos dela com sua banda e frases tendo a beleza como temática (“beleza cabe onde algo for” é um exemplo). O encarte traz as letras em tipologias diferentes, como se tivessem sido rascunhadas pelos próprios compositores (é lindo ver “Oração ao Tempo” com a letra descompromissada de Caetano Veloso). Onde são dispostos os nomes dos autores, há uma fidelização sobre suas assinaturas. Além disso, no encarte existem algumas páginas com recortes e uma outra com um papel translúcido. Até mesmo o release (termo jornalístico para o texto enviado pela assessoria de imprensa) do disco veio em um papel diferenciado.

As três primeiras faixas do álbum produzido por Rodrigo Vidal podem enganar o ouvinte e levá-lo a conclusão de que este segundo trabalho é uma repetição do anterior. “Nó Pé de Vento”, parceria dela com Edu Krieger, tem letra bonitinha, arranjos simples, mas bem feitos, porém não passa muito disso. O mesmo acontece com “Anjo da Guarda Noturno”, de Miltinho Edilberto, e a autoral “Taregué”.

Mas a partir da quarta música já dá para ver um grande amadurecimento. O capricho nos arranjos e as letras mais elaboradas começam a aparecer a partir de “Estranho Natural”, composição autoral que ganhou a sofisticação de violas, violinos e violoncelos. Com uma letra capaz de deixar muitos instigados com diversos tipos de questionamentos (“Quem vai gritar primeiro? Quem?/O grito que afrouxa em desespero/ o peito que parte à voz do trovão”), “Quem?” é a melhor faixa do álbum. A música conta com a participação superespecial de Lenine e arranjos que provocam tensão.

"Axé Acappella", de Dani Black e Luísa Maita, também é ponto alto do álbum. Contando com ótimo acompanhamento de um quarteto de sopros, álem do violão do próprio Black, a música é a que provoca mais surpresas em todo o disco - da melodia à interpretão madura de Gadú. Outro destaque é a parceria com o português Marco Rodrigues na bela "A Valsa".

Outros momentos especiais de "Mais Uma Página" são as experiências com outras línguas. Em "Like a Rose" e "Long Long Time", parcerias da artista com o norte-americano Jesse Harris, Gadú esplora muito bem todos os timbres de sua bela voz. O mesmo acontece com a castelhana "Estranjero", de Cassyano Correr e Maycon Ananias. O problema é que a overdose de Maria Gadú deve ir além das trilhas nacionais das novelas para ganhar as internacionais.

Além da ótima versão para "Oração ao Tempo" que muitos já conhecem, há ainda uma interpretação não muito inventiva de "Amor de Índio", clássico de Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Quando chegar a essa 14ª faixa, não desligue o CD playes. O disco traz uma faixa escondida, em que Gadú solta a voz com seus amigos de banda ao som de piano.

E por falar em banda, é importante reconhecer que a evolução melódica da artista se deve ao contato intenso de Gadú com seu quinteto, formado por Cesinha (bateria), Fernando Caneca (guitarra e violão), Doga ( percussão), Gastão Villeroy (baixo) e Maycon Ananias (piano). O som "cheio" de todo o repertório, com vários intrumentos sendo muito bem utilizados, mostram que a artista e todos a cercam amadureceram bastante em dois anos.

Fonte: Hoje em Dia

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